Burnout: quando o descanso já não é suficiente
Nem sempre o burnout começa com um colapso. Muitas vezes, ele se instala silenciosamente.
Psicóloga Ana Monteiro
6/16/2026


O burnout, ou esgotamento profissional, é um fenômeno relacionado ao trabalho que pode se desenvolver de forma gradual. Diferente de um período de estresse pontual, em que a pessoa tende a se recuperar após o encerramento de uma situação mais exigente, no burnout o sofrimento pode persistir e se estender para além do ambiente de trabalho, afetando diferentes áreas da vida.
De acordo com Benevides-Pereira (2012), o burnout envolve três dimensões: a exaustão emocional, caracterizada pelo esgotamento físico e mental; a despersonalização, marcada por um distanciamento afetivo e por uma postura mais impessoal nas relações; e a reduzida realização pessoal, associada a sentimentos de insatisfação, ineficácia e diminuição da autoestima.
Em muitos casos, não existe um momento específico em que a pessoa percebe claramente que não está bem. Ela continua trabalhando, cumprindo suas responsabilidades e tentando dar conta das demandas do dia a dia. Com o passar do tempo, o cansaço deixa de ser algo passageiro e passa a fazer parte da rotina. Mesmo após os finais de semana ou períodos de descanso, a sensação de esgotamento parece não desaparecer completamente.
Além do cansaço mental, podem surgir irritabilidade, ansiedade, dificuldade para relaxar, alterações no sono, isolamento e uma perda gradual do prazer em atividades que antes eram importantes. Aos poucos, pode surgir uma sensação de apatia diante da vida e uma desconexão difícil de colocar em palavras. Em alguns momentos, a pessoa percebe que já não encontra o mesmo sentido nas atividades realizadas e passa a se perguntar sobre a forma como vem conduzindo a própria vida.
Por se tratar de um processo gradual, nem sempre é fácil reconhecer que algo não vai bem. Muitas vezes, a pessoa continua funcionando e cumprindo suas responsabilidades, enquanto o sofrimento se instala de maneira silenciosa. Aos poucos, a vida pode passar a ser vivida em um modo quase automático, voltado principalmente para responder às exigências do cotidiano. A pessoa continua funcionando, mas pode deixar de se levar em consideração genuinamente, tornando-se cada vez mais distante daquilo que sente, precisa ou considera importante para si.
Embora os sintomas do burnout estejam relacionados ao trabalho, seus efeitos podem se estender para além dele. Mudanças nas relações interpessoais, maior irritabilidade, isolamento e menor disponibilidade emocional podem fazer parte dessa experiência. Em alguns momentos, pode surgir a sensação de estar presente nos lugares, mas sem conseguir se envolver verdadeiramente com aquilo que está sendo vivido.
É nesse contexto que a psicoterapia pode oferecer um espaço de cuidado, escuta e acolhimento para um sofrimento que, muitas vezes, permanece silenciado por bastante tempo. A partir da Gestalt-terapia, busca-se compreender como cada pessoa vivencia suas experiências, se relaciona com o trabalho, com os outros e consigo mesma.
Ao longo do processo terapêutico, pode ser favorecida uma maior consciência sobre sentimentos, necessidades e formas de se posicionar diante da vida. Mais do que compreender racionalmente aquilo que está acontecendo, trata-se de desenvolver um olhar mais atento para a própria experiência e para a maneira como se vive e se relaciona. Isso pode favorecer uma maior consciência sobre aquilo que faz sentido para si, dos limites que considera saudáveis e da forma como escolhe se posicionar diante da vida. Na Gestalt-terapia, essa ampliação da consciência da experiência vivida é considerada um aspecto fundamental do processo terapêutico (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1951).
Além da psicoterapia, outros recursos também podem contribuir para o enfrentamento do burnout. O suporte social, os vínculos estabelecidos com colegas de trabalho, amigos e familiares e a possibilidade de reconhecer e comunicar sentimentos, necessidades e limites de maneira mais clara são aspectos que podem favorecer formas mais saudáveis de lidar com as dificuldades. Da mesma forma, momentos de lazer, descanso e cuidados com a saúde física também desempenham um papel importante na promoção do bem-estar e da qualidade de vida.
Quando o descanso já não é suficiente, talvez seja o momento de olhar não apenas para a quantidade de tarefas ou para as exigências do trabalho, mas também para aquilo que, ao longo do caminho, pode ter deixado de ser visto ou considerado. Em muitos casos, cuidar do sofrimento envolve criar espaço para que necessidades, sentimentos e limites possam voltar a ser reconhecidos — e para que seja possível voltar a se sentir presente na própria vida.
Se você se identificou com algo do que foi descrito aqui, a psicoterapia pode ser um espaço para essa escuta. Não para resolver tudo de uma vez, mas para começar a olhar com mais cuidado para o que está acontecendo com você.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENEVIDES-PEREIRA, Ana Maria Teresa. Considerações sobre a síndrome de burnout e seu impacto no ensino. Boletim de Psicologia, São Paulo, v. 62, n. 137, p. 155-168, 2012.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press, 1951.
© 2026 Ana Monteiro · Psicóloga · CRP 05/84125






